Luís Vaz de Camões
Heróis portugueses
Os Lusíadas
I, IX-XII
IX
Inclinai por um pouco a majestade,
Que nesse tenro gesto vos contemplo,
Que já se mostra qual na inteira idade,
Quando subindo ireis ao eterno templo.
Os olhos da real benignidade
Ponde no chão: vereis um novo exemplo
De amor dos pátrios feitos valerosos,
Em versos divulgado numerosos.
X
Vereis amor da pátria, não movido
De prêmio vil, mas alto e quase eterno:
Por um pregão do ninho meu paterno.
Ouvi! vereis o nome engrandecido
Daqueles, de quem sois senhor superno:
E julgareis qual é mais excelente,
Se ser do mundo rei, se de tal gente.
XI
Ouvi! que não vereis com vãs façanhas,
Fantásticas, fingidas, mentirosas,
Louvar os vossos, como nas estranhas
Musas, de engrandecer-se desejosas.
As verdadeiras vossas são tamanhas,
Que excedem as sonhadas, fabulosas;
Que excedem Rodamonte e o vão Rugeiro,
E Orlando, inda que fora verdadeiro.
XII
Por estes vos darei um Nuno fero,
Que fez ao rei e ao reino tal serviço;
Um Egas, e Um Dom Fuas (que de Homero
A cítara par' eles só cobiço),
Pois pelos doze Pares dar-vos quero
Os doze de Inglaterra e o seu Magriço;
Dou-vos também aquele ilustre Gama,
Que para si de Enéias toma a fama.