Fulcanelli
A Cruz, hieróglifo alquímico do crisol
O Mistério das Catedrais
I, IV
A cruz é um símbolo muito antigo, usado em todas as épocas, em todas as religiões, por todos os povos, e seria errado considerá-lo como símbolo especial do Cristianismo, como o demonstra sobejamente o abade Ansault. Diremos mesmo que o plano dos grandes edifícios religiosos da Idade Média, pela junção de uma abside semicircular ou elíptica ligada ao coro, adota a forma do signo hierático egípcio da cruz de argola, que se lê ank e designa a Vida universal oculta nas coisas. Pode ver-se um exemplo no museu de Saint-Germain-en-Laye, num sarcófago cristão proveniente das criptas arlesianas de Saint-Honorat. Por outro lado, o equivalente hermético do signo ank é o emblema de Vénus ou Cypris (em grego Κύπρις, a impura), o cobre vulgar que alguns, para velar ainda mais o sentido, traduziram por bronze e latão. «Branqueia o latão e queima os teus livros», repetem todos os bons autores. Κύπρος é a mesma palavra que Σούφρος, enxofre, que tem o significado de adubo, excremento, estrume, imundície. «O sábio encontrará a nossa pedra até no excremento, escreve o Cosmopolita, enquanto o ignorante não poderá pensar que ela esteja no ouro.»
E é assim que o plano do edifício cristão nos revela as qualidades da matéria-prima e a sua preparação através do sinal da Cruz; o que resulta, para os alquimistas, na obtenção da Primeira pedra, pedra angular da Grande Obra filosofal. Foi sobre esta pedra que Jesus construiu a sua Igreja [...].