João Ameal
Testamento d'El-Rei Dom Dinis, Pai da pátria, ao seu filho
História de Portugal
II,I
Ao sentir-se morrer, chama Dom Dinis os filhos e alguns familiares. Na última fala, recorda os princípios que o nortearam, o amor de Deus e da Pátria a que obedeceu toda a vida. E dirige ao herdeiro da Coroa, na versão do Cronista, estas palavras de nobilíssimo sentido:
— “Encomendovos sobre tudo o grande amor que deveis ao nosso povo, pois ficais Rey da melhor, & mais leal gente que tem Senhor Pagam, ou Catholico, & como tal aveis de fazer no Reino officio brando, e amoroso, antes que de Rey absoluto. Tudo governareis com pouco trabalho, regendovos por homens desinteressados, & de são conselho, & afastando de vos malcins, mexiriqueiros, que são traças das rendas Reaes, e inquietadores do Reino pacifico. Folgae com a justiça, e nam troçaes ponto dela por nenhum respeito da terra, porque a propria achareis em Deos que guardardes com vossos vassallos. A palavra que derdes seja como juramento: & não haja amor, ou temor que vos obrigue a quebrala, tomando de mim esta herança que nunca em cousa que dissesse faltei a minha palavra; porque o Rei inconstante no que promete, mais honra lhe fora não ter Reyno, que conheceremno por mentiroso”.
Testamento de um grande Rei, de um grande homem de bem — e de um grande Poeta.