Egídio Romano
As partes da prudência segundo Egídio Romano
De regimine principum
II. Pars Lib. I.
Quot, et quae oporteat habere Regem, si debeat esse prudens. Cap. VIII
Transcrição
Quoniam nunquam perfecte habetur aliquod totum, nisi habeantur partes eius: si debeat aliquis esse perfecte prudens, oportet ipsum habere omnia quae concurrunt ad prudentiam, et omnes partes eius. Conserverunt autem assignari octo partes prudentiae, videlicet, memoria, providentia, intellectus, ratio, solertia, docilitas, experientia, et cautio. Quare si Rex, aut Princeps debeat esse prudens, oportet ipsum esse memorem, providum, intelligentem, rationabilem, solertem, docilem, expertum, et cautum. Haec autem octo, quae dicuntur esse partes prudentiae, sic accipi possunt. Nam (ut patet ex habitis) ex hoc aliquis dicitur esse prudens, quia est sufficiens dirigere se, et alios in aliqua bona, sive in aliquos bonos fines. Quatuor ergo est ibi considerare, videlicet, bona, ad quae dirigit: modum, per quem dirigit: personam dirigentem, et gentem, quam dirigit. Ratione bonorum ad quae dirigit, oportet Regem esse memorem, et providum: propter modum secundum quem dirigit, oportet ipsum esse intelligentem, et rationabilem: ratione propriae personae quae alios est dirigens, oportet quod sit solers, et docilis: ratione vero gentis quam dirigit, congruit quod sit expertus et cautus. Si enim Rex debet gentem aliquam ad bonum dirigere, oportet quod habeat memoriam praeteritorum, et providentiam futurorum. Debet enim habere praeteritoum memoriam, non quod possit praeterita immutare, quia nulli agenti hoc est possibile, sed decet Regem habere praeteritorum memoriam, ut possit ex praeteritis cognoscere, quid evenire debeat in futurum. Nam (ut scribitur secundo Rhetoricorum) in contingentibus agibilibus, ut plurimum futura sunt praeteritis similia. Secundo decet ipsum habere providentiam futurorum: quia homines providentes futura bona, excogitant vias, per quas faciliter illa adipisci valeant. Ergo ratione bonorum, ad quae Rex gentem suam dirigere debet, expedit ut habeat providentiam futurorum, ut facilius illa futura bona adipisci valeat, et ut habeat memoriam praeteritorum, ut ex actis praeteritis sciat quid agere debeat in futurum. Ratione vero modi per quem dirigit, oportet quod habet intellectum et rationem, sive oportet quod sit intelligens et rationale. Modus enim, quo Rex suum populum dirigit, oportet quod sit humanus, quia Rex ipse homo est. Homo enim intelligit ratiocinando et discurrendo. Accipit enim aliqua principia et aliquas praemissas, ex quibus elicit intentas conclusiones et hoc tam in speculabilibus, quam in agibilibus. Nam sicut fiunt rationes, ut demonstretur, quid sit verum cognoscendum: sic fiunt rationes, ut persuadeatur quid sit bonum prosequendum. Ratione igitur huiusmodi cognoscendi, qui est inditus hominibus, volens alios dirigere, oportet quod sit intelligens, cognoscendo principia, et praemissa, et rationalis, ratiocinando, et eliciendo ex illis praemissis conclusiones intentas. Vel oportet quod sit intelligens, sciendo leges, et consuetudines bonas, et alia quae possunt esse Principia, et regulae agendorum. Oportet autem quod sit rationalis, speculando ex illis regulis quid agere congruit. Sicut ergo ratione bonorum ad quae dirigit, oportet Regem esse memorem, et providum: sic ratione modi per quem dirigit, oportet ipsum esse intelligentem, et rationalem. Sed ratione propriae personae quae est alios dirigens, oportet quod sit solers, et docilis. Nam qui in tanto culmine est positus, ut tantam gentem regere habeat, oportet quod sit industris, et solers, ut sciat ex se invenire bona gentis sibi comissae. Verum quia nullus homo sufficit ad excogitandum omnia quae possunt esse utilia toti regno, cum hoc quod Regem expedit esse solertem ex se, quae bona sunt regno utilia excogitando, oportet ipsum esse docilem, aliorum consiliis acquiescendo. Posumus enim dicere de Rege, quod dicitur de Magnanimo 4. Ethicorum, quod non decet ipsum fugere commoventem. Non enim decet Regem in omnibus sequi caput suum, nec inniti sempre solertiae propriae: sed oportet ipsum esse docilem, ut sit habilis ad capescendam doctrinam aliorum, acquiescendo doctrinis, et consiliis baronum, seniorum, sapientum, et diligentium regun. Patet ergo quod ratione propriae personae quae est alios dirigens, oportet Regem esse solertem, et docilem. Sed ratione gentis quam dirigit, oportet ipsum esse expertum, et cautum. Experientia enim est rerum particularium. Prout igitur sunt alia, et alia particularia, et prout aliquis negociatur circa aliam, et aliam gentem, sunt alia, et alia exquirenda. Oportet igitur Principem respectu gentis cui praeest, esse expertum, cognoscendo particulares conditiones gentis sibi comissae, ut possit eam melius in debitum finem dirigere. Ultimo oportet ipsum esse cautum. Nam sicut in speculabilibus falsa aliquando admiscentur veris, propter quod creduntur vera, quae non sunt vera, sed apparent vera: sic in agibilibus mala multoties admiscentur bonis, propter quod creduntur bona, sed non sunt bona, sed apparent bona. Oportet igitur Regem esse cautum, respuendo appraenter bona, et eligendo bona simpliciter, ad quae debet dirigere gentem sibi comissam.
Tradução
Uma vez que nunca se tem plenamente nenhuma totalidade se não forem tidas igualmente as suas partes, caso alguém queira ser prudente em perfeição, convém que tenha todas as coisas que concorrem à prudência, bem como todas as suas partes. Costuma-se, pois, assinalar oito partes da prudência, a saber: a memória, a providência¹, o intelecto, a razão, a solércia², a docilidade, a experiência e a caução. Ora, se o Rei, ou o Príncipe, deve ser prudente, convém ele ser lembradiço, providente, inteligente, racional, solerte, dócil, experimentado e cauto. Essas oito características, ditas partes da prudência, podem ser tomadas do seguinte modo.
Diz-se (assim como se dá nos hábitos) alguém ser prudente quando sabe dirigir a si mesmo e aos outros para o bem, ou para bons fins. Aqui devem ser consideradas quatro perspectivas: os bens aos quais se dirige, o modo pelo qual se dirige, a pessoa dirigente e as pessoas dirigidas. Quanto aos bens aos quais se dirige, convém que o Rei seja lembradiço e providente; quanto ao modo pelo qual se dirige, convém que ele seja inteligente e racional; quanto ao dirigente, convém que ele seja solerte e dócil; quanto às pessoas dirigidas, convém que ele seja experimentado e cauto.
Se, pois, o Rei deve dirigir as pessoas ao bem, convém que ele tenha memória das coisas pretéritas e providência [isto é, vislumbre] das coisas futuras. Ele deve ter memória das coisas pretéritas não porque se possa mudá-las, o que a ninguém é dado fazer, mas porque ele deve saber extrair das coisas passadas o conhecimento das coisas futuras. Isto porque (como está no segundo livro da Retórica) nas questões práticas é no mais alto grau que se encontram semelhanças entre o futuro e o passado.
Em segundo lugar, convém que ele tenha providência [vislumbre] das coisas futuras. Homens providentes quanto a bens futuros perscrutam os caminhos pelos quais podem facilmente alcançá-los. Portanto, quanto aos bens aos quais o Rei deve dirigir seu povo, é necessário ter providência das coisas futuras, a fim de mais facilmente poder alcançar os bens futuros; e é necessário ter memória das coisas pretéritas, a fim de dos atos pretéritos tirar o conhecimento para agir no futuro.
Quanto ao modo pelo qual [o Rei] dirige o povo, convém que ele tenha intelecto e razão, ou, em outras palavras, que seja inteligente e racional. Isto porque convém que seja humano o modo pelo qual o Rei dirige seu povo, pois o próprio Rei é humano. O homem, pois, intelige raciocinando e discorrendo. Ele assente a determinados princípios e premissas dos quais tira as devidas conclusões, e isto tanto em questões especulativas quanto em questões práticas. Assim como se dão as razões próprias à demonstração do verdadeiro, dão-se as razões próprias à persuasão que convence acerca do bem a ser buscado. Desse modo, quanto à capacidade de conhecer, que se encontra inata no homem, se este quiser dirigir os outros, convém que seja inteligente, conhecedor de princípios e premissas, e racional, pensando e sacando das mesmas premissas as devidas conclusões. E, por outro lado, convém que seja inteligente, conhecedor das leis e dos bons costumes, bem como de outras coisas que possam ser princípios e regras para o agir.
Também convém que seja racional, especulando a partir das regras o que deve ser feito. Portanto, assim como, quanto aos bens aos quais se dirige, convém o Rei ser lembradiço e providente, assim também, quanto ao modo pelo qual dirige, convém ele ser inteligente e racional. Porém, quanto ao dirigente, convém que ele seja solerte e dócil, porque quem é colocado em tão alta posição, a de regente de tantas pessoas, deve ser sagaz e solerte, para que saiba por si mesmo cuidar do povo a ele confiado.
Em verdade, como nenhum homem é capaz de, sozinho, perscrutar todas as coisas que podem ser úteis ao reino inteiro, embora o Rei deva ser solerte em si mesmo, capaz de perscrutar quais são os bens úteis ao reino, convém que ele também seja dócil, aberto aos conselhos dos outros. Podemos dizer do Rei, então, o que se diz do homem magnânimo no quarto livro da Ética, isto é, que não lhe convém fugir dos auxiliares. Dessa forma, o Rei não deve seguir seu próprio juízo em todas as coisas, nem confiar sempre na própria solércia. Antes, convém que ele seja dócil, isto é, hábil a apreender as doutrinas alheias, aberto a elas e aos conselhos dos barões, dos anciões, dos sábios e dos que zelam pelo reino. É evidente, portanto, que, quanto ao dirigente, convém ser solerte e dócil.
Enfim, quanto às pessoas dirigidas, convém que ele seja experimentado e cauto. A experiência se dá quanto a coisas particulares. Logo, se são particulares determinados assuntos e se se trata com determinadas pessoas, são do mesmo modo determinadas as considerações que se deve fazer. Convém ao Príncipe, portanto, no que diz respeito às pessoas a ele subordinadas, ser experimentado, ou seja, conhecedor das condições particulares daqueles que lhe foram confiados, para poder melhor dirigi-los ao devido fim. Em último lugar, convém que ele seja cauto. Isto porque, assim como nas questões especulativas o falso às vezes se mistura ao verdadeiro, fazendo crer-se verdadeiro o que não é verdadeiro, mas só aparenta sê-lo, assim também nas questões práticas muito frequentemente os males se misturam aos bens, fazendo crer-se boas coisas que não são boas, mas só aparentam sê-lo.
Logo, convém ao Rei ser cauto, rejeitando os bens aparentes e eligindo os bens verdadeiros, aos quais deve dirigir o povo a ele confiado.
¹ Aqui deve-se entender "providência" no sentido etimológico: a capacidade de ver à frente, pro videre. Trata-se de vislumbrar as coisas futuras, o que, segundo São Tomás, de quem Egídio Romano foi discípulo na Universidade de Paris, é a principal característica da prudência. Não deixa de ser notável que prudentia seja corruptela de providentia.
² Solércia não deve aqui ser entendida como sinônimo de "malandragem" ou de "artimanha". Esse vocábulo quer significar "plenitude de capacidade". O solerte sabe agir em situações imprevistas, por ter em si, plenamente, o hábito -- pois virtudes são hábitos -- da prudência; ele é engenhoso para encontrar mesmo no inesperado a melhor rota, que leva ao maior bem.