Mircea Eliade
Tempo histórico e tempo litúrgico
Mito e Realidade
p. 146
Orígenes compreendeu perfeitamente que a originalidade do cristianismo está, em primeiro lugar, no fato de a Encarnação se haver efetuado num Tempo histórico e não num Tempo cósmico. Ele não esquece, entretanto, que o Mistério da Encarnação não pode ser reduzido à sua historicidade. Por outro lado, ao proclamar “às nações” a divindade de Jesus Cristo, as primeiras gerações de cristãos proclamavam implicitamente sua trans-historicidade. Não que Jesus não fosse considerado um personagem histórico; mas acima de tudo salientava-se que ele era o Filho de Deus, o Salvador universal que redimira não somente o Homem, mas também a Natureza. Mais ainda: a historicidade de Jesus já havia sido transcendida por sua Ascensão ao Céu e por sua reintegração na Glória divina.
Ao proclamar a Encarnação, a Ressurreição e a Ascensão do Verbo, os cristãos estavam convictos de que não apresentavam um novo mito. Na realidade, eles se utilizavam das categorias do pensamento mítico. Evidentemente, eles não podiam reconhecer esse pensamento mítico nas mitologias dessacralizadas dos pagãos eruditos seus contemporâneos. Mas é óbvio que, para os cristãos de todas as confissões, o centro da vida religiosa é constituído pelo drama de Jesus Cristo. Embora representado na História, esse drama possibilitou a salvação; conseqüentemente, existe apenas um meio de obter a salvação: repetir ritualmente esse drama exemplar e imitar o modelo supremo, revelado pela vida e pelo ensinamento de Jesus. Ora, esse comportamento religioso faz parte do pensamento mítico autêntico.
É preciso acrescentar imediatamente que, pelo fato mesmo de ser uma religião, o cristianismo teve de conservar ao menos um comportamento mítico: o tempo litúrgico, ou seja, a recuperação periódica do illud tempus do "princípio". "A experiência religiosa do cristão baseia-se na imitação de Cristo como modelo exemplar, na repetição litúrgica da vida, morte e ressurreição do Senhor, e na contemporaneidade do cristão com o illud tempus, que se inicia com a Natividade em Belém e se encerra, provisoriamente, com a Ascensão". Ora, como vimos, "a imitação de um modelo transumano, a repetição de um enredo exemplar e a ruptura do tempo profano mediante uma abertura que desemboca no Grande Tempo, constituem as notas essenciais do "comportamento mítico", isto é, do homem das sociedades arcaicas, que encontra no mito a própria fonte de sua existência".
Todavia, embora o Tempo litúrgico seja um tempo circular, o cristianismo, herdeiro fiel do judaísmo, aceita o Tempo linear da História: o Mundo foi criado uma única vez e terá um único fim; a Encarnação teve lugar uma única vez, no Tempo histórico, e haverá um único Juízo. Desde o início, o cristianismo sofreu influências múltiplas e contraditórias, sobretudo as do gnosticismo, do judaísmo e do "paganismo". A reação da Igreja não foi uniforme. Os Padres desencadearam uma luta sem tréguas contra o acosmismo e o esoterismo da Gnose; conservaram, entretanto, os elementos gnósticos apresentados no Evangelho de João, nas Epístolas Paulinas e em certos textos primitivos. Mas, a despeito das perseguições, o gnosticismo jamais foi radicalmente extirpado, e alguns mitos gnósticos, mais ou menos camuflados, ressurgiram nas literaturas orais e escritas da Idade Média.