João Ameal
A feminil doçura de Santa Isabel e das nobres damas ibéricas
História de Portugal
II,I
Momento efêmero, porém, como todos aqueles em que parece atingir-se a harmonia rara das coisas perfeitas! O reinado, à entrada, foi a discórdia armada. Primeiro, é Leiria, de que se apossa o Infante [Dom Afonso, filho de Dom Dinis e Dona Isabel] em 1320, e que seu pai tem de reconquistar à frente de um exército. Um ano depois, Coimbra, o Porto, o assédio de Guimarães. Enfim, o ataque do rebelde a Santarém e a marcha sobre Lisboa, em 1323. Chega a haver sangrentos recontros e a cada hora pai e filho estão sujeitos a ver-se frente a frente, no campo da batalha. Em 1324, ateia Dom Afonso nova insurreição em Santarém e voltam a ferir-se, aqui e além, combates fratricidas.
Abalado por desgostos tão amargos, ferido de morte pela ingratidão do filho, Dom Dinis não pode resistir muito tempo. Alguns meses mais, e o trono pertence a Dom Afonso — que com tal impaciência o deseja.
Uma teoria de doces mulheres aparece, no meio destas desavenças íntimas, a trazer palavras de mediação e de trégua, é a Rainha de Castela Dona Maria; é Dona Beatriz, viúva do Bolonhês; é a triste Infanta Dona Branca. Acima de todas, presente sempre onde a dor, a maldade, a crueza humanas reclamem a sua intervenção tutelar — Isabel de Aragão, mulher de Dom Dinis, cujas extraordinárias virtudes serão um dia consagradas pela Igreja. “Era em suas palavras mui mansa” — descreve o Cronista — “e em suas obras mui conforme ha toda humildade, sem algum levantamento de soberba, de maneira que a graça do Espírito Santo, de que era aceza de todo, causava em sua alma um louvado assosseguo...”. Como aparição de mística transparência, atravessa todo o reinado, a dar conforto aos míseros, auxílio aos indigentes, a beijar e a enfermar os leprosos — e, também, a amparar esses leprosos de alma que são os homens desavindos. A lenda das esmolas que se transformam em rosas é das mais belas e puras do hagiológio. A maravilhosa intervenção de Alvalade — quando a Rainha, com a sua clara presença, montada numa pequena mula, surge entre os combatentes e logra suspender as hostilidades pacificar os espíritos — vem quebrar a sombria paisagem do ódio e da luta. Isabel anda como que alheia nas regiões distantes e radiosas da Fé, olhos postos em Deus, seu Senhor e seu Destino, uma palavra de perdão e caridade em cada hora — acesa por inteiro na graça do Espírito Santo. Também trava a sua guerra: a guerra da Misericórdia. A sua vitória é fazer que reine a paz sobre os homens de boa vontade.