Voltar

João Ameal

O Hábito sob a Armadura

História de Portugal

I, III

imagen_2025-07-30_015950628_b4fe9160-65da-428d-a10b-523f9c89a4ec.webp

Às Ordens Militares se confiam os grandes postos de vanguarda — baluartes extremos onde vêm bater as ondas bravas da moirama. Ali se levantam fortalezas dentro das quais oram e aguardam os monges cavaleiros, em perpétua vigília de armas. Todo o seu destino consiste em apurar a alma para a oferecer, íntegra, limpa de pecados, à hora festiva da batalha.

De fato, esses homens, que vivem num transporte de exaltação, partem para a batalha como para uma festa. Festa de sacrifício e de resgate, que lhes permite dar provas do seu entusiasmo apostólico, do seu desprendimento dos bens terrenos, da sua obediência ao apelo divino. Festa de sangue? O sangue do infiel purifica o mundo! É com tal segurança que os freires acometem, — missionários da espada, certos de servirem uma verdade mais alta e de abrirem, nos redemoinhos dos montantes, os claros trilhos da futura redenção humana.

É a morte, para eles, o melhor prêmio. Consagram-se inteiramente a Cristo, à meditação e prédica da Sua doutrina, à imitação do Seu exemplo, ao triunfo completo da Sua causa. Desde que lhes seja dada a recompensa de sucumbir no serviço de Deus, às mãos dos que O blasfemam e injuriam, é porque o seu voto foi aceito, o sentido da sua trajetória terrena foi cumprido. Varados de cutiladas, a esvair-se por mil feridas — abre-lhes a morte um sorriso sobre-humano na face deslumbrada. Sabem que, no mesmo instante em que os olhos perdem a visão do mundo, das suas lutas e das suas misérias — no mesmo instante se lhes descerram, em beatífico alvor, os horizontes da Vida Eterna e da Luz Eterna!

Insensíveis, portanto, às agruras e aos perigos do combate. Privações, sofrimentos, temores do adversário traiçoeiro deixam-nos indiferentes, porque apenas representam meios propícios de atingir o desejado objetivo. Quanto mais dor — mais amor. Cada qual ambiciona pesado lote de amargas provas, visto assim lhe caber glória maior nas alturas. A coroa de espinhos na Terra equivale, no Céu, à promessa de radiosa coroa de louros. Entre os lances tumultuários e ferozes das pugnas à arma branca, entre os gritos ululantes dos mouros enfurecidos — avançam inundados de imensa alegria por se verem convertidos em irmãos do Crucificado e terem a certeza profunda de merecer, à custa de males transitórios, a bem-aventurança sem fim.

Assim transfigurados, assim predestinados, colaboram, na primeira fila, em toda a epopeia da nossa Reconquista. Quando do famoso assalto noturno a Santarém, ei-los junto de Dom Afonso I, a saltar às muralhas, a despedir golpes sobre a turba agarena. Nas campanhas árduas do Alentejo e do Algarve, em que vilas e castelos passam de um a outro campo e sucessivos fluxos e refluxos marcam o desesperado duelo de duas crenças e duas raças — suportam quase só por si o peso dos choques bélicos e os progressos do nosso domínio assinalam-se pelas doações que lhes são feitas em reconhecimento das suas proezas. Entre os primeiros Reis e as Ordens Militares a união é estreita, íntima, total — porque os liga o espírito de Cruzada e os exorta em conjunto a voz distante dos Pontífices de Roma.

Publicado por Bruno em 6 de maio de 2026