Acerca da arte de traduzir
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A noção de tradução tem dois sentidos bastante diferentes a depender de onde a encontremos, se é no Ocidente ou no Oriente tradicional. Os dois sentidos são legítimos, mas não devemos confundi-los. Em primeiro lugar, fazer uma tradução é verter um discurso tale e quale a uma outra língua — e é quase um truísmo adicionar-se a isso que a tradução deve ser literal, ao mesmo tempo que evite os erros gramaticais e os contrassensos. A tradução deve ser literal tanto quanto for possível, e porque não há nenhuma razão para que não o seja, dado que se trata de comunicar aquilo que o autor quis dizer, e nada mais. Eis aí o significado que a noção de tradução tem no Ocidente — ou pelo menos em princípio, pois está longe de ser verdade que ele o tenha tido continuamente. No Oriente, a significação de uma palavra muda de acordo com a diferença de intenção, ou seja, da razão de ser da operação. Quando, por exemplo, traduzimos certos textos budistas do sânscrito para o chinês, não queremos oferecer aí um equivalente linguístico, mas tornar compreensível aos chineses o que esses textos buscavam oferecer, substancialmente. Desse ponto de vista, a noção de tradução coincide com a de comentário, e daí traduzir ser também explicar. E nada impede que os leitores tenham acesso ao original em sânscrito, se o desejarem. Mas não devemos em nenhum caso introduzir essa perspectiva particular na arte de traduzir tomada na sua acepção ordinária e ocidental. Não se devem confundir nem intenções divergentes nem as razões de ser dessas divergências.
No plano da tradução propriamente dita (e não no do comentário interpretativo), segue-se naturalmente que uma tradução sempre deva transmitir o pensamento do autor, e nada além do seu pensamento, de todo o seu pensamento, quer ele se enuncie por uma frase complexa, quer por uma simples expressão. Mas a tradução nem sempre pode transmitir os valores poéticos, e jamais transmitirá os valores eufônicos. Estes pertencem exclusivamente à língua de que se traduz; aqueles ocasionalmente dependem de recursos gramaticais, terminológicos e retóricos dessa língua. Isso não significa que uma tradução se esvazie de todo o valor do texto original, porque o valor do pensamento está para além das diferenças linguísticas e estéticas. E, como o pensamento se sobrepõe ao estilo e, com mais razão ainda, à eufonia, um texto que perdesse todo o valor por uma tradução correta provaria por isso mesmo a sua falta de valor. Tudo isto serve para mostrar que uma tradução pode pecar, para além de outras impropriedades, por uma acentuação exagerada do estilo em sacrifício do pensamento, o que não impede que haja tradutores de gênio, que conseguem recriar na segunda língua não somente a ambiência estilística, mas até mesmo o elemento musical.
Fonte
Frithjof Schuon
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Responsável: Igor Montez
Tradução
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