Sobre o argumento ontológico
Filosofia Tradução Frithjof Schuon 12 de setembro de 2026

Sobre o argumento ontológico

Logique et transcendance

Para poder-se admitir a prova¹ ontológica de Deus, que infere da existência de um conceito inato a existência da realidade objetiva a ele correspondente, [...] é necessário começar por compreender que a verdade não depende do raciocínio — evidentemente, não é ele quem a cria —, mas que ela se revela, ou se especifica, graças à chave fornecida pela operação mental. Em todo assentimento intelectual há um elemento que escapa ao mecanismo do pensamento, assim como a luz e as cores escapam à geometria, a qual no entanto pode, em princípio, simbolizá-las remota e indiretamente. Não há "prova pura". Toda prova pressupõe o conhecimento de certos dados. A prova ontológica — notavelmente formulada por Santo Agostinho e por Santo Anselmo — é eficaz para o sujeito que já dispõe de evidências² iniciais, mas ela é ineficaz para o sujeito que é voluntária e sistematicamente superficial. Um tal sujeito não concebe sequer a profunda natureza da causalidade. Para ele, o progresso da inteligência vai não do exterior para o interior, mas deste para aquele, até ao oblívio daquilo que compõe a razão de ser do entendimento.
 
¹ (N. T.) A "prova ontológica" é mais comumente referida por "argumento ontológico", formulação cuja etimologia convém à exposição de Schuon.
 
² (N. T.) Hoje em dia temos viciada essa palavra. "Evidência", palavra que muitas vezes nos discursos atuais é incorretamente usada em lugar de "indício", quer aqui significar aquele ponto de partida sem o qual nenhum raciocínio se constitui. Também aqui a forma da palavra não deixa de ser notável.

Fonte

Frithjof Schuon

Logique et transcendance

Responsável: Igor Montez

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Publicado em 12 de setembro de 2026